O eterno retorno

O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!”. – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, A gaia ciência.

Coisas

Coisas. Eu tenho muitas. Demasiadas coisas. Objetos. Livros, computadores, um celular, panelas, canetas, copos, garrafas cheias e vazias, um grampeador, papéis, muitos papéis, sapatos… Caixas, caixas e mais caixas de coisas.
Minhas? Não poso dizer que as possuo por direito, a maioria delas me foram dadas. E eu as carreguei comigo.
Mas pra que eu precisaria de coisas? Pra apenas dizer “Eu as tenho.” e tentar, com isso, dizer que sou feliz? Feliz eu sou, mas não preciso de coisas para o ser, de fato.
Eu preciso de amor, um beijo na nuca de vez em quando e boas histórias pra nelas me perder. Eu preciso sentir. E eu sinto. Eu não sinto as coisas que tenho ou que eu penso precisar ter um dia. Eu sinto um cheiro de brisa suave, eu sinto uma nuvem bonita no céu, as cores da tarde num céu vermelho-azulado e o acordar de uma vida sem sentido.
Sou boba, mas eu sinto. E, portanto, posso dizer que, sim, sou feliz, e não preciso de coisas pra isso.

Nuvens

Hoje, as nuvens no céu pareciam um desenho, daqueles que você faz quando criança. Contornos em azul escuro, que gradualmente se transformavam em uma brancura fofa, de uma maciez extrema.
Não sei o que isso quer dizer, mas me fez sentir leve.